Parece que faço só pra me machucar, mas realmente não consigo ficar um dia sem correr atrás de notícias, homenagens, textos, fotos ou o que for sobre o Gabriel. Pode parecer martírio, loucura, tortura, sei lá… talvez seja saudade, talvez eu busque consolo e palavras que me façam, de verdade, acreditar na morte dele. E eu ainda não acredito, tá difícil de aceitar.. Não consigo pensar que toda aquela energia, aquela vida, se resumiu ao corpo pálido que vi no começo desta semana, coberto por flores.
Eu gostava muito do Gabriel, mas nunca consegui expressar isso muito bem, devido às circunstâncias da vida. E também achava o abraço dele um dos melhores… sempre sincero e bem apertado, fazendo me sentir protegida. E isso também não consegui dizer. Ultimamente não nos víamos muito, também devido a essas mesmas circunstâncias…. Mas, espero que, onde quer que ele esteja agora, ele saiba que foi importante pra mim e que eu o adorava demais.
O Gabriel está nos melhores momentos que vivi. Nunca vou esquecer dos cafés que tomamos juntos, das noites na Lancheria do Parque que passamos bebendo vinho ruim, das nossas conversas sobre qualquer coisa, que sempre acabavam em gargalhadas. Nunca vou esquecer da vez que passamos por quase todos os bares da cidade, atrás de uma tal vodka polonesa, que ele fazia questão de me apresentar. Nunca vou esquecer da madrugada em que visitamos juntos quase todas as pracinhas de Porto Alegre e brincamos freneticamente em todos os brinquedos: gangorra, escorrega, balanço, até eu tomar um tombo e bater a cabeça… Crianças em chamas! Nunca vou esquecer dos encontros no Via Imperatore em que ele pedia um prato engraçado, apenas bife e um ovo frito, das vezes que, altas horas, ligávamos para o Antenor só para encher o saco e rir da velhice dele. Nunca vou esquecer do dia que, em meio à José do Patrocínio, tentava lhe ensinar alguns passos da patinação artística: salto inglês, passo de valsa e etc e tal. Tiramos várias fotos nesse dia, mas ainda não as vi.
Toda vez que tenho uma reunião no trabalho, alguma coisa mais séria, me lembro do dia em que ele me pediu para eu soltar os cabelos porque, assim, pareceria mais adulta. Não faz muita diferença, mas eu acreditei nisso e faço questão de soltar as madeixas quando preciso parecer gente grande…
Foram tantas coisas que fizemos juntos, tantas besteiras e loucuras!
Eu sei que também o magoei algumas vezes e não fui capaz de pedir desculpas. E hoje isso me deixa extremamente triste, pois oportunidades não faltaram. Acho que foi vergonha, medo, não sei. Sorry, honey.
Mas a questão é que eu ainda não acredito que, quando estiver pelo Bell’s ou passeando pela Cidade Baixa, não vou mais encontrar aquele rapazinho estiloso, pronto pra me dar um abraço e um beijo, cantar Kaiser Chiefs comigo e me convidar para uma indiada pela madrugada afora. Não consigo imaginar que nunca mais vou poder ouvir aquela voz, aquela risada peculiar, aquela ironia que ele fazia questão de colocar nas palavras… "Isso não faz nenhum sentido!"
Não imagino uma chinelagem sem ele, uma festa sem ele, um drum’n'bass sem ele, um café sem ele, um charuto sem ele, uma boina sem ele, o Insanus sem ele, meu passado sem ele e também não imaginava meu futuro sem ele. Tudo que eu vejo hoje, me lembra essa criaturinha e é difícil acreditar que é só lembrança, que não vou mais encontrá-lo, que não vou mais dançar com ele, cantar com ele, ganhar o abraço bom…
Enquanto ia para o cemitério, ainda atônita e perplexa com a notícia da morte dele, escutava o novo álbum do Sparta, "Threes", precisamente a música 8, "False Start". E por mais que a letra não tenha nenhuma relação com o que se passava naquele instante, a melodia não sai da minha cabeça até hoje, se tornou a trilha sonora de um dos dias mais tristes por que passei. A todo insante me vejo murmurando essa música, com o olhar perdido, lembrando dele sorrindo, ou com a mão no queixo, tendo alguma idéia genial e, por fim, acabo em lágrimas, por lembrar que ele se foi de vez.
Eu me sinto privilegiada por ter sido tua amiga, Gabriel. E não deu tempo de montar a minha pasta, pra tu me indicar pra qualquer trabalho aí… Mas tu me deu coragem e isso basta.
Ai ai…A vida te tirou das nossas vidas cedo demais…
Tu ficarás eternamente comigo, Gabriel. Jamais vou te esquecer, queri!