De repente você se vê sozinho numa casa que sequer parece a sua, a tremer, suar, chorar. Febril e magoado, principalmente pelos erros cometidos, graves, que não saem da sua cabeça. E seu corpo se contorce, seu sono se perde, você se perde. Se confunde em milhões de coisas absurdas que passam a rondar a sua mente, a atrapalhar sua saúde e sua tão costumeira centralidade. Cenas que lembram o bichano de Kafka, em A Metamorfose. Metamorfose? Antes fosse. A transformação nunca chega.
E você já havia prometido a si mesmo, aos seus amigos e até mesmo a Deus não cometer mais nenhuma estupidez, exatamente porque elas te fazem ficar assim e acabam te afastando de todos. E encaixando-se perfeitamente no que Freud dizia em sua tal teoria do Id, você passa a ser um Idiota, permanecendo nesta condição por anos afora, continuando a praticar a mesma atitude por impulso, auto-afirmação ou sabe-se lá o que.
Sim, e depois você se auto-flagela relembrando, a todo momento, cada passo em falso. Você se culpa por estar deprimido, adoecido e por precisar de ajuda. Pede, implora que te ouçam, mas tentando não atrapalhar, permitindo que escolham. Mas os erros foram tantos e tão recorrentes, tantas vezes tiveram que te tirar da fossa que você mesmo cavou, que a escolha é deixar de lado, não se envolver. É tão normal.
Então você se vê sozinho, você, seu celular e um ventilador na cara, pra tentar fazer os calafrios passarem. Mas pra que telefone se, dos 200 contatos da agenda, nenhum se importaria? Alguém, às 3 da manhã, te traria água, dormiria ao teu lado, sairia do conforto de sua casa para, simplesmente, te abraçar e dizer que está do teu lado? Não, eles não fariam.
Então você se vê sozinho. Simplesmente sozinho.