no embalo
levanto às sete, sozinha. vou pro banho sozinha, escovo os dentes, seco o cabelo e ninguém acorda com meu barulho. provo três ou quatro sapatos, jogo roupas em cima da cama vazia. saio correndo, passo a chave e pego o elevador, sozinha. depois vem o ônibus, a passarela, o outro elevador e a minha cadeira de todo dia. sou a primeira a chegar, sozinha.
depois vêm os outros e, mesmo não sendo um ambiente pra se ficar alegre, é ali que ainda consigo rir. eu faço piadas e, por vezes, dou risada sozinha.
depois o dia passa, sem nem eu perceber, e eu saio da bolha e da cadeira onde passei pelo menos 10 horas. geralmente volto a pé, sozinha e com medo. mas o medo passa com os poucos reflexos que geralmente começam a me enfraquecer. e eu estou sozinha.
acendo um cigarro pra celebrar o momento de meditação a caminho de minha casa e nela chego em menos de 20 minutos. pego o elevador, abro a porta, largo bolsas e sacolas no sofá. estou sozinha.
minha cabeça roda e roda e roda, meu olhar não consegue fixar um ponto só.
pra tudo passar rápido, eu mais uma vez tomo um banho, escovo os dentes, troco de roupa e volto à mesma cama vazia. jogo as roupas no chão e fecho os olhos.
levanto às sete, sozinha.
