normalidade selvagem
Ontem saí do trabalho com fome, em torno das 20h30. A última refeição que havia feito foi ao meio dia, quando comi um pequeno pedaço de frango grelhado, arroz, feijão, farofa e alface. Estava com o estômago roncando, além de um cansaço acentuado pela quantidade de coisas que fiz ao longo do dia. Dentro do ônibus, comecei a pensar nas possibilidades de jantar: pizza, cachorro quente, torradas?
O supermercado mais próximo de minha casa é o Nacional em frente ao HPS, o pior da rede. Apertado, sem muitas opções, com filas enormes, ele atende basicamente os vizinhos que têm preguiça de ir até o Zaffari da Fernandes Vieira e as pessoas que estão pelo Hospital de Clínicas ou pelo HPS mesmo.
Escolhi uma pizza barata e comprei mais alguns mantimentos e, enquanto estava na fila do caixa, já de saco cheio de esperar para ser atendida, com raiva das operadoras que não se mexiam, um senhor de uns 70 anos entrou no supermercado.
Descalço e com a roupa bastante suja, todos olharam para ele com asco. Ao passar ao meu lado, um cheiro nada agradável me incomodou e, mais ainda, uma gigantesa ferida em seu rosto, que começava na boca e ia até quase a testa, em carne viva.
Ele andava devagar, sem cambalear. Parecia estar lúcido, mas mancava, dando pequenos passos. Os seguranças já estavam prontos para recolhê-lo e colocá-lo para fora, como se fosse um meliante. Ele seguiu pelos corredores, como se estivesse em busca de algum produto, como qualquer outra pessoa dali.
Ao voltar minha atenção para a fila e para meu carrinho cheio de bobagens (pizza, nuggets, doces) me senti triste e impotente. A vontade era de perguntar como ele se sentia, o que estava acontecendo, se ele precisava de ajuda. Mas a velha forma de tratar essas intervenções da miséria e da violência em nossa vida como NORMAIS não me permitiu ir atrás do senhor franzino.
Fiquei ali, me roendo de culpa, com os olhos cheios de lágrimas por pensar que poderia ser eu. Sim, poderia, e não tem nada a ver com essa história de persistência, de trabalho, de ir atrás das oportunidades.
Eu poderia ter 70 anos, ter sido expulsa de casa, estar vivendo na rua, com frio, com fome, sem roupas, sem banho, sem saúde, sem ter de onde tirar grana, sem ter apoio. Poderia ser eu entrando num local onde só os que têm dinheiro para gastar são bem-vindos, sendo recebida com cara de nojo e tratada como ladra.
Eu saí do supermercado indignada comigo mesma e com essa doença chamada individualismo, egoísmo. Diariamente, passo por pelo menos 3 ou quatro pessoas no mesmo estado, dormindo nas calçadas, enfrentando um frio de menos de 5 graus. Mas assim que dobro a esquina, esqueço delas.
E é isso que me revoltou hoje pela manhã. Enquanto fumava um cigarro, sozinha, voltei a pensar no tal senhorzinho do super. Bastou eu chegar em casa depois de tê-lo encontrado, tomar um banho quente, e eu o esqueci. Esqueci minha parcela de culpa nessa história, esqueci que não se pode suportar situações assim, esqueci que naquela noite ele iria passar frio novamente. Comi bem, dormi bem, acordei bem, cheia de cobertores, em uma casa agradável e quentinha.
Isso, definitivamente, não é justo. Quero que retirem essa venda dos meus olhos. Dos meus e de todos os outros que agem da mesma forma, diariamente. Como é possível convivermos com isso? Como é possível achar banal tanta degradação humana e social?
Eu continuo não sabendo como agir, mas agradeço por ter começado o dia com um pouco mais de revolta.

acho que a gente esquece por uma espécie de defesa. porque certas coisas são tão desgraçadas e tristes que a única vontade é sentar em um meio-fio e chorar.
Comment by pati benvenuti — 6 June, 2008 @ 1:31 pm