sobre querer
Me contorço a cada palavra sussurrada pela tua boca junto ao meu ouvido. Um arrepio quente e gelado sobe do dedo do pé até a nuca, até o último fio de cabelo, fazendo questão de causar rebuliços e paradas estratégicas pela espinha.
Me vejo louca, insana, enlaçada em lençóis que já foram testemunhas de outras histórias. Confusa entre palavras já pronunciadas, entre noites já vividas… e que não são minhas.
E as horas passam rápido demais, não me deixam contemplar cada volta, cada fração do teu corpo macio e intenso. Queria eu, bem quieta e devagar, poder tocar cada cicatriz do teu rosto e adivinhar de onde vêm as tuas marcas, as tuas fraquezas. Queria eu ter mais tempo pra fitar teus olhos e traduzir verdades que não são ditas, que não brotam na pele e nem vertem com os suspiros.
Mas o dia seguinte irrompe a madrugada e chega de sobressalto, me arranca da cama, me coloca na rua, me solta, me joga no mundo real. E como esse, muitos outros dias vêm e levam, com a noite, um pouco da minha memória, que é tua.
Resta esperar e se apegar no teu vestígio, enquanto teu semblante se esvai. Resta aguardar até o próximo momento de me contorcer nos mesmos lençóis com cada palavra sussurrada ao meu ouvido, de me ver louca, insana. Resta perder o juízo, perder a calma, perder o sono, perder o tempo. Resta perder.

