Pra quem não me conhece ou não sabe, durante muitos anos de minha adolescência fiz parte do MTG (Movimento Tradicionalista Gaúcho), fui prenda do CTG e da 19ª Região Tradicionalista do RS, ganhei prêmios, apresentei projetos para professores universitários, estudei muito folclore e dei aulas de história e geografia do RS para crianças carentes, além de outros trabalhos voluntários. Também estourei meus joelhos devido à combinação de dança tradicionalista (que sim, exige muito ensaio) + patinação artística. Mas não quero falar dos meus joelhos. Quero falar de algo que abomino que se chama PRECONCEITO.
Enquanto prenda, fora dos padrões das meninas da minha turma, fui sim, muito discriminada. Nunca era convidada pras jantinhas das meninas, riam cada vez que eu tinha de participar de algum evento e ia devidamente pilchada (= trajada) para a escola. Algo que poderia ter me deixado traumatizada, depressiva, triste. Mas eu sinceramente estava CAGANDO e ANDANDO pra galerinha que me olhava com outros olhos.
Foi nesse meio que aprendi a exercitar a oratória, que comecei a me expressar melhor e conquistar meu espaço em outros setores da minha vida, inclusive na própria escola. Sou o que sou hoje muito em virtude de tudo que fiz e aprendi enquanto guria de 12 anos que viajava sozinha e tinha muitas outras responsabilidades além de estudar pro colégio.
Pois bem, como havia dito, se tem algo que abomino é o preconceito. E, quem diria, um dos principais pólos motivadores de atitudes preconceituosas no estado são os CTGs.
Está rolando pela web um tal artigo escrito por um tradicionalista (?) que mora em Santa Catarina (L) que fala sobre "peões delicados" e a influência gay nos CTGs. O texto, de um senhor chamado Ademir Canabarro (que se intitula "O missioneiro"), é repugnante para qualquer pessoa que defende ou entende sobre direitos humanos e liberdade (uma das palavrinhas de nossa querida bandeira, inclusive), principalmente pelo deboche com que trata essa questão.
A primeira frase do texto - "O avanço do homossexualismo no mundo atinge todas as camadas sociais e todas as culturas, é um avanço assustador!" - já mostra com quanta ignorância ele vê a questão do homossexualismo, como se fosse uma doença, uma epidemia contagiosa. Pior ainda é a seguinte parte:
"…querem nos fazer acreditar que isto de homem acasalar com homem, e mulher com mulher é normal e natural. Não acho que seja! Homem acasala com mulher e mulher acasala com homem! Da mesma maneira que cavalo cobre égua e não cavalo, e égua não cobre égua. Égua é coberta pelo cavalo! Isto sim, é natural! Preferências a parte, a liberdade da escolha sexual é uma realidade que também invadiu o tradicionalismo"
Assustadora, caro missioneiro, é a forma com o que o senhor trata o que HÁ MUITO TEMPO acontece em nossa sociedade e sim, dentro dos CTGs. É como se homossexuais fossem incapazes de cultuar e difundir as tradições do estado por uma questão de opção sexual. Nos compara com éguas e cavalos e não tem a inteligência mínima para compreender que, se foi nos dada a capacidade de pensar e discernir, está intrínseco a isso a possibilidade de escolher. E acaba com "Preferências à parte…", como se realmente, independente de toda sua tese, aceitasse as escolhas dos demais.
Eu mesma conheci muitos homossexuais no CTG que fizeram a diferença, que desenvolviam muito bem o seu trabalho de espalhar cultura (afinal, esta é a grande missão dos centros de tradições e do MTG). E não me venha com este papo de macho grosso, missioneiro, porque só se usa este tipo de linguagem quando não se pode usar argumentos racionais. Ser bravo e aguerrido não quer dizer ser IGNORANTE e ESTÚPIDO.
Lendo uma matéria sobre o artigo (que foi apoiado pelo presidente do MTG), percebi que este mesmo meio que me possibilitou crescer e desenvolver habilidades - em virtude do qual fui discriminada e pude entender que fazer isso com alguém pelas opções que esta pessoa toma é retrocesso - é um lugar onde jamais deixaria meus filhos. Acho a nossa música, nossa dança, nossa poesia e herança histórica realmente muito bonitas, mas - antes de mais nada - prezo pela liberdade de expressão, de credo, pela igualdade das raças, pela liberdade de escolha sexual, algo tão fundamental para se viver em paz e se considerar HUMANO e não um simples animal reprodutor.